top of page

003 - Vestir uma vida fictícia: o que o Oscar de figurino nos conta sobre personagens


Vestir uma personagem não é como vestir uma pessoa.


 Hamnet (2025). Banco imagens Google.
Hamnet (2025). Banco imagens Google.


Personagens, intencionalmente ou não, acabam carregando um certo grau de clichê. Explico: por mais inovador que seja o roteiro, por mais surpreendente que seja a roupa, o fato é que — diferente da vida real — quem pensa o figurino no cinema sabe exatamente como aquelas peças precisam performar.

Tudo é calculado: intempéries climáticas, amores desfeitos, sexo, suor, corridas, quedas, silêncios, movimentos.


Nada é casual.


E precisa ser assim para funcionar.


O roteiro já está fechado para aquela história e para aquela vida específica. Na vida real, ao contrário, não controlamos imprevistos e tampouco podemos editar a narrativa depois.

Ainda assim, existe algo profundamente fascinante no processo de construir roupas para uma vida inventada. Para quem cria, é um trabalho de enorme complexidade criativa. Para quem assiste, é uma experiência estética poderosa.


No meu caso, talvez ainda mais.


Pesquiso moda e trabalho vestindo mulheres para seus diferentes papéis na vida real. Nos últimos anos, comecei a flertar mais com essas construções ficcionais: observar como os figurinos dão vida às personagens, como criam personalidade, como ajudam a fixar uma presença na tela.

Treinar o olhar para perceber os processos criativos das figurinistas virou um exercício recorrente para mim.


E esse exercício sempre me lembra de algo importante:


 nunca é só sobre roupa.

Figurino também precisa funcionar


Tal como na vida real, a roupa no cinema precisa funcionar.


E aqui, “funcionar” significa que ela não pode atrapalhar a performance do ator nem interferir negativamente na narrativa. Pelo contrário — precisa amplificá-la.


Esse é, aliás, o ponto de partida comum entre as figurinistas indicadas ao Oscar deste ano.

De maneiras diferentes, todas elas destacam que o figurino ajuda o ator a sentir a personagem. A roupa dá materialidade à interpretação: cria sensações físicas, psicológicas e emocionais para aquela vida que está sendo encenada.


O ator, portanto, é a primeira baliza quando se pensa um figurino.


Deborah L. Scott — indicada por Avatar: Fogo e Cinza — também aponta outro aspecto fundamental: a verossimilhança. Para que a história impacte o público, algum grau de identificação precisa acontecer.


O figurino ajuda a construir essa ponte.


Para isso, ele precisa ser convincente. Isso significa que a caracterização deve estar alinhada com a lógica da narrativa. Daí a importância do processo de pesquisa — frequentemente longo, rigoroso e alimentado por múltiplas fontes.

Traduzir ideias em roupa


Kate Hawley — indicada por Frankenstein — enfrentou um desafio particularmente interessante: deslocar temporalmente uma história clássica, amplamente conhecida pelo público.


Frenkstein (2025) - Banco de imagens Google
Frenkstein (2025) - Banco de imagens Google

Volumes dramáticos, texturas densas e cores marcantes foram usados para orientar o olhar do espectador. O figurino funciona quase como um fio condutor visual da narrativa escolhida pelo diretor.


O resultado é um filme pictórico, gótico e dramático — plenamente alinhado às questões filosóficas que a obra convoca.


Confesso que a historiadora que habita em mim sempre se emociona diante desses trabalhos.

O que mais me encanta é observar as "costuras" — no sentido metafórico — que essas mulheres fazem entre diferentes referências, períodos históricos e interpretações para traduzir tudo isso em vestimenta.


Essa é uma das especificidades da arte cinematográfica: sua vocação para emocionar, provocar reflexão e criar experiências estéticas.


E, para isso, o cinema muitas vezes se permite abdicar do rigor documental. A liberdade poética abre espaço para algo igualmente poderoso: a empatia.

Quando o figurino escolhe a emoção


Malgozia Turanska O’Farrell — indicada por Hamnet — optou por um caminho semelhante.

Em vez de priorizar uma reconstrução estritamente elizabetana, ela decidiu acompanhar o fluxo emocional da história. Cores, tecidos e volumes são utilizados para acompanhar as vivências das personagens que passam por paixão, amor, perda, luto e perdão. 


O figurino, nesse caso, não busca apenas precisão histórica. Ele busca conexão emocional com o público.


É uma escolha estética.

Figurino também conta a história


Ao final, fica evidente que o figurino está longe de ser um simples complemento visual.

Ele é parte fundamental da narrativa.


Ao lado da fotografia, da maquiagem e da cenografia, a roupa constrói visualidades que dizem não apenas sobre a história do filme, mas também sobre o contexto sociocultural em que essa obra foi produzida.



Michel B. Jordan em Sinners (2025) - banco de imagens google
Michel B. Jordan em Sinners (2025) - banco de imagens google

Ruth E. Carter — indicada por Sinners, o filme mais indicado da temporada — reafirma isso com clareza.

Conhecida por utilizar o figurino como linguagem política, Carter transforma a roupa em manifesto visual. Em uma história que se passa ao longo de um único dia, ela utiliza o figurino para identificar personagens, contar a história do blues, iluminar a negritude e conectar diferentes camadas da história racial dos Estados Unidos.


O resultado é um deleite visual de temporalidades, resistência e afeto.


Dentro de uma paleta predominantemente sóbria, as cores da bandeira estadunidense surgem como pontos de tensão simbólica. Há também referências aos chamados dândis negros, tema recorrente nas discussões de moda de 2025, além de inúmeras citações visuais das estéticas negra nas décadas do século XX.


O efeito é curioso: espectadores de diferentes gerações encontram algum ponto de reconhecimento.


Praticamente uma vertigem nostálgica.


Do meu ponto de vista: genial.


E confesso: sou absolutamente fã de Ruth E. Carter.

Para olhar com mais atenção


Por fim, quero dizer que não escrevi este texto para fazer uma análise técnica de figurino.


Minha intenção é mais simples: te provocar para olhar de maneira mais atenta a próxima vez que você assistir a um filme.


Repare nas roupas.

Nos tecidos.

Nas silhuetas.

Nos pequenos sinais que ajudam a contar aquela história.


Talvez te inspire, te traga alguma lembrança…

Ou, talvez, este texto simplesmente gere curiosidade e vontade de assistir algum dos filmes citados aqui.


Se você chegou até o final deste texto, um beijo — e obrigada pela companhia.



PS1: Este texto foi inspirado por uma conversa que tive com meu colega, amigo e especialista em cinema Alexandre Macari. Se quiser, você pode ouvir o papo aqui.


PS2: Se você gosta de observar roupas como parte das histórias que contamos sobre nós mesmos, essa é uma das conversas que quero continuar explorando por aqui. Ainda não sei bem a frequência, mas prometo me dedicar.

Comentários


bottom of page